segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dois Morangos no Escuro





"Farewell the ashtray girl, forbbiden snowflack. Beware this troubled world. Watch out for earthquakes, goodbye for open sores, to broken semaphor. You know we miss her, we miss her picture"



Este conto é sobre duas garotas, and you know what i mean. Mas acima de tudo, este é um conto sobre amor, sobre música, sobre vinho, sobre palavras, sobre andar sobre o fogo sem se queimar. Este conto não é meu. É  teu, é dela, dele, deles, de quem ler. É delas, em sua maior parte porém. É importante ressaltar que era em Agosto, mas que podia ser em qualquer mês, o tempo não tem nome. O tempo é contagioso, todos estamos envelhecendo.
Mas era Agosto e passava "Closer" na televisão. Um par de olhos lacrimosos julgava a Anna como uma vadia sem coração e o Dan como um fraco, um "tremendo borra botas" e ria da sua mania de ser velha mesmo sendo uma jovenzinha empertigada. 

A outra com o coração batendo descompassado, suspirava pelas palavras de fé da Senhorita Eyres, "Oh Céus, não seriam elas, minhas também?"
Palavras, palavras, palavras. A caixa de som defeituosa repetia "As palavras tentam mexer com você, não deixe elas te quebrarem ou fazerem o seu mundo parar de girar".
Eu assistia ambas, não por prazer, mas porque precisava. Eu escrevia sobre elas, pra que meus olhos não deixassem de se alargar e porque elas me doiam muito. Ah, como vocês me doem hoje. Eu escrevia também pra tirar da minha alma esse brilho todo que expeliam ao sorrir. Eram dessas que sorriem pelos olhos.  Pessoas cujo sorriso parece sair dos olhos e da boca e tomar primeiro o contorno do rosto e depois a silhueta inteira.
Elas eram muito mais do que as descrições da minha mente alcoolizada podem traduzir e mesmo assim eu tento, por um pouco de brilho, eu tento. Eu disse que o conto falaria sobre o amor, mas não o amor das vitrines, e sim, o amor como manifestação de tudo o que há de verdadeiro, como manifestação de qualquer coisa assim que podemos chamar de "Deus", por falta de um nome mais apropriado. Uma delas sabia apenas correr atrás do que acreditava, mesmo que acreditasse numa coisa diferente a cada dia. A outra caminhava nas ruas cheias de domingos, com as mãos no bolso contando as horas, contando os lampejos de vida, medindo cada dia pela quantidade sonhos que cabiam neles.



"Mas me diga: Você viajou através do sol? Você chegou a Via Láctea? A ponto de ver todas as luzes apagadas e descobrir que o céu é inalcançável? Diga-me, você caiu de uma estrela cadente, a única sem uma cicatriz permanente? E você sentiu minha falta enquanto estava procurando por si mesma lá fora?"



-Você acredita em amor? - Ela dizia lambuzando-se com o resto de chocolate que restara nos dedos.
- Não, são tolices que a ficção inventou pra que conseguissem nos condicionar e manipular e depois fazer experiências bizarras em laboratórios com nossos hormônios.
-Deve ser mesmo tudo hormonal, coisa assim. - Ela suspirou e sorveu o cheiro do capuccinno. - Então, por que será que dói além da carne?
- Porque somos feitos pra doer.



"Pedras me ensinaram a voar, o amor me ensinou a mentir, a vida me ensinou a morrer... E não é tão difícil cair, quando você flutua como uma bola de canhão. Pedras me ensinaram a voar, o amor me ensinou a chorar. Então, venha coragem, ensine-me a ser tímido porque não é difícil se apaixonar. Não é difícil crescer quando você sabe que simplesmente não sabe."



Primavera-Verão, sol, sorvete, riso, pranto, discussão, calor-calor, coca-cola, latas, ironias, sarcasmos, cores, beijos, ruas, carros, mãos tímidas, mãos dadas, olhos, boca, céu-amarelo-azul-magenta, medo, plenitude, paz, Primavera-Verão. É, eu acho que eu gosto um pouquinho de você. Eu, gosto, de, você, também. - Um pouquinho? Acho, que, não.




"The shorter story... no love, no glory, no hero in her sky"

-Por que eu não posso te amar? Por que você não me deixa te amar?

"I can't take my eyes off of you"

-Eu teria te amado pra sempre.

"I can't take my mind off of you"



É melhor parar, tem coisas que só o silêncio compreende. Não foi Hamlet que disse "É mister ficar calado"? Mas o silêncio não me diz nada, não enquanto eu olho o meu silêncio. Os silêncios alheios são tão floridos. Eu imagino epopéias, tragédias gregas, romances de folhetins. E no silêncio da moça a minha frente, eu escuto os sons e rimas da sua mente. Ela cantarola um verso do Chico enquanto olha pro nada e enrola uma mecha rebelde de cabelo: "Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios, rompi com o mundo, queimei meus navios".
E eu fico com a imagem dos navios queimados na cabeça. São grandes e cheios de velas ardendo nas mais incandescentes chamas, posso ver também salamandras ariscas dançando em meio as labaredas. Eu vejo mais além, um oceano de memórias nos olhos da menina. Como eu poderia não me comover com alguém que cantarola Chico Buarque e me faz pensar em navios queimados e salamandras encantadas? Ela me comove, sempre.



"Agora que ela está de volta na atmosfera com gotas de Júpiter nos seus cabelos. Ela age como o verão e anda como a chuva e me lembra que sempre há tempo pra mudar. Desde sua estadia na lua, ela escuta como a primaveira e fala como Juno. Diga-me, o vento soprou sob seus pés? Finalmente você teve a chance de dançar com a luz do dia e voltar pela Via Láctea? E me diga se Vênus confundiu sua mente? Era o que você realmente queria encontrar? E você por acaso não sentiu minha falta enquanto estava procurando por si mesma lá fora?"



Eu desisto. Sons de harpas e de passos vem a tona o tempo todo e por mais que eu tente parar, uma motivação inexplicável me impulsiona a prosseguir mesmo que eu sinta mil lanças afiadas posicionadas ao meu redor. Eu não me importo, eu continuo por um pouco de brilho nessa noite vazia, um pouco de brilho pra colorir as estrelas desse céu vazio.



-Eu não sabia disso..
- Pois é, se a maçã apenas murchar, é porque sua casa é habitada por duendes.
-Isso é um absurdo.
- Eu sou absurda e não preciso fazer sentido.



Ela era mesmo um absurdo. Ía do pranto ao riso em questão de segundos e se surpreendia quando não compreendiam esse mistério e caçoava de si mesma porque era impossível não ser assim, achava que o amor salvava do vazio, achava que as palavras eram seu veneno e seu bálsamo mas encolhia-se de medo que a ferissem ou que ela mesma se ferisse. Tinha os olhos de Catherina Earnshaw e não de Capitu. Também queria correr para as charnecas, também queria a liberdade de ser selvagem. Mas o que é ser livre? O que é ser livre num mundo de hostilidade e falsas cordialidades.
Somos todos brutais mesmo. Aceitar nossa truculência, é também aceitar nossa beleza. Ela era uma flor no lodo, um bocado de poeira estelar lançada sobre uma montanha, um sonho febril de um poeta em transe. Uma sacerdotisa profana.



"Eu sei que você ama a canção mas não o cantor, eu sei que você me têm preso entre seus dedos. Eu sei, você quer o pecado mas não o pecador"



Se um dia alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi, então eu seria feliz. - I know. - I'm alergic to people. - Não demonstrar emoções, it's so dangerous. - You're a sad little creature, arent' you? - O avesso é seu lado certo - Escutar Strawberry Fields Forever mais uma vez e pensar "Ainda é tempo de morangos", mas ainda lembrar que a vida é um soco no estômago - Someday you'll be loved - O céu não parecia ser meu lar... - It always rains on our generation - CLOSER - You may know my name, but don't know me - Life's full of regrets, Charlie Brown - Mrs Dalloway sempre dando festas pra encobrir o silêncio - ALWAYS the love love, always the hours - Se me dessem um último pedido, eu escolheria você - People pass one another, forever strangers - those eyes, those smile - De que romance antigo me roubaste? -  You're too sweet for rock'n'roll - Conversas banais são desesperadoras - I AM NOT A SMILE! - Será que meu calor não te atordoa, nem minha luz? - Hello, Stranger!


Todos estranhos, passando um pelo outro por uma avenida triste. É como se chorasse, mas sem o apelo das lágrimas. É como se gritasse mas não a plenos pulmões, é como se dançasse mas apenas caminhando, é como se sentisse dor sem sentir, é como se fingisse, encenasse. Alguém disse que chovia lá fora e ela não ouviu, outro disse que os anjos lhe guiariam, ela não acreditou. Um a um, passavam lado a lado, como numa coreografia macabra. Eternamente estranhos, estranhamente humanos. Talvez sejamos todos apenas parênteses na vida um dos outros. Um intervalo entre uma respiração, uma pausa na solidão a que nos condenamos dia a dia. Eu vou beber minhas lágrimas a noite e vê-las pingar durante o dia. Eu vou tampar os olhos pra vastidão, tampar os olhos pra não ver um céu tão sem nada, tão sem ausência. Faz três meses que hoje não acaba, faz três meses que ela vê o universo nas paredes do seu quarto. Alguém disse que toda a mulher é um pouco Bovary. Eu digo que nem todas, mas elas eram.
Ah, como vocês me doem! Ah, como vocês me curam, como vocês me salvam a alma do naufrágio de todas as minhas esperanças. É sempre por brilho que continuo. Porque eu esperei a minha vida toda pra pintar esta cidade de vermelho, mas não vale a pena esperar se alguns de nós estão morrendo procurando encontrar a porta do amor.



"Quando aprendemos a voar, nós esquecemos como caminhar. Quando aprendemos a cantar, nós não queremos mais ouvir um ao outro. Quando sabemos o que queremos, esquecemos o que precisamos. Quando você encontrar a si mesmo, se esquecerá de mim"



Estamos todos na linha de chegada. Eu, elas, vocês que assistem de longe e não compreendem e nem compreenderiam se estivessem por perto. Ainda há que se acreditar, a linha da chegada está próxima e enquanto somos jovens, temos o som, temos o pulso e temos o brilho de garotas como elas. Eu fiz um conto sobre amor, música e duas garotas. Talvez eu tenha escrito muito mais pra mim do que pra quem me ler, a arte desde os românticos é particular e única. Particular como uma lágrima que rola em silêncio e cai fina entre os seios de uma jovem e única como uma canção quando ouvida pela primeira vez. Eu vou parar antes que ambas me seduzam com o canto da sereia e me façam prisioneiro de seus mistérios pra sempre. E pra sempre é sempre por um triz.

domingo, 4 de setembro de 2011

On My Way





"Get up, GET OUT, get away from these liars,
  Cause they don't get your soul or your fire"



Me pediram para falar e todo esse tempo eu estive quieta, quieta o suficiente pra não mostrar os dentes, quieta o suficiente para não me vitimizar diante do mundo. 

Quieta - Assim poderiam me deixar mais um pouco, mas eles insistiram.
Um dia apenas não faz mal - Eles dizem. Mas só se o dia os pertence. Quando o dia é meu, quando a noite é minha, eu sou proibida de brincar, porque eu quebro se encostar em mim com muita força, porque eu sou dessas flores de estopa. Porque eu queimo se olharem fixamente nos meus olhos. Porque eu faço arder. Me pedem pra calar e eu grito:


FODAM-SE VOCÊS!

Eu podia me espelhar em Saramago e assustá-los com uma "merda" no caminho, porque isso, com toda a certeza, feriria a sensibilidade de vocês. Sabe, viver tem me ferido muito a sensibilidade, assistir a decadência cotidiana de tudo o que era certo, tem me calejado mais ainda alma, mas calos são bons. Então, eu não reclamo. Quem tem a alma calejada aguenta andar pelos terronos mais acidentados. Gente assim voa no meio do tornado quase que se misturando no vento, vocês vêem? Não parece ser bom? Mas eu não estou disposta a esconder as nódoas e pecados que me constroem só pra não magoar a vista fragilizada de todos vocês. Então junto a mais insana voragem do peito e grito-quase-uivo:

FODAM-SE VOCÊS!


Agora sim, peito calmo, vou dizer o que penso, pra quem conseguir ter paciência e estômago pra me ler-ouvir-sentir-pulsar-ver. Foda-se você e sua pretensa espiritualidade de menina mal saída dos cueros que acha que Deus tá preocupado com seu penar, fodam-se todas as suas orações, suas esperanças, seus sonhos pisados, seu orgulho rompido, suas lágrimas nos copos de café, seus sorrisos frenéticos e mentirosos nas ruas. Foda-se sua fé, ela não me atinge, não me comove, pode parar de tentar buscar um céu vazio, um Deus mudo. Tente buscar um Deus-Humano que não caçoe das suas covardias, fraquezas e derrotas.

Foda-se você e sua pretensa anarquia que me faz ter nojo da minha pretensa anarquia, que me faz tentar ser melhor pra mim, porque não quero me reconhecer em você. Foda-se sua postura de que desolada, solitária, anônima na multidão quando sabe que sob a plumagem das suas asas celestiais se escondem adagas prontas pra ferir por puro egoísmo. Foda-se seu sorriso de menina-acabei-de-menstruar-e-vou-sair-saltitando-pelas-ruas-se-você-me-beijar-agora. FODA-SE MESMO!
Foda-se essa mania de tentar me impressionar com anéis de latão, máscaras bem pintadas mas descascando, senso comum, Senhor óbvio-mais-do-que-perfeito. Pare de usar mesóclise, eu odeio mesóclise.
Foda-se seus números, pro inferno com essa lógica, pro inferno com essas doenças cristãs. 
Foda-se os erros e os milhões de defeitos, foda-se essa fraqueza mascarada de altivez. Foda-se essa saudade manipuladora. Pro inferno vocês e todos esses jogos pra me brutalizar, pra me escarnecer.
Foda-se esses sorrisos amarelos, essa sua pureza nojenta de bicho rasteiro que só espera pra te picar, foda-se essa sua falsa ingenuidade, foda-se toda a mentira, toda a calúnia, toda maldade.
Foda-se a cordialidade normativa, a obscenidade mentirosa, fodam-se os dogmas e a moral. Se eu não puder usar meu verso e minha liberdade, eu prefiro não usar a própria vida.
Foda-se o desamor, a secura, a servidão, a injustiça, foda-se você e sua mente perfeita, brilhante e vazia.
Foda-se seus termos banais,  suas conversas sem brilho.


E que toda doença seja expulsa de mim e que não me obriguem a ter a dor além da dor que já não dói.
E que eu seja generosa ainda que mesquinha,
Que vocês não me firam tanto quanto querem, mas apenas se eu deixar.
E que o grito nunca sucumba dentro de mim como algumas crenças.
Porque é por existir direito ao grito que eu grito.


Eu sou vil... como vocês.
Eu sou pérfida... como vocês.
Eu sou real... como poucos.


Dentro da roda dos dias, peço permissão pra girar do meu jeito.

sábado, 27 de agosto de 2011

O Exílio de Psiquê



Um casal transa do meu lado. Na tevê Nana Caymmi canta baixinho " Suave Veneno".
Aumento o som: "Se eu me curar desse amor, não volto a te procurar"
E eu rezo sem fé pru'm céu sem Deus que alguém retire o veneno.
Está frio e eu não quero mais recordar noites quentes.
Sua língua traçando rastros de fogo na minha pele imaculada, tão imaculada quanto o meu amor. Meus pés roçando a batata da sua perna e bagunçando os pelos ali, seus olhos turvados de desejo sobre os meus também obscurecidos, mais do que já são. E eu os fechava, as vezes, para apenas sentir nossa dança misteriosa.
Sua voz e língua tremulando no lóbulo da minha orelha esquerda.
Eu ainda tenho seu gosto entranhado no fundo da boca, minha pele ainda sente o mesmo arrepio do momento primeiro em que me tocou.
Meu sangue ainda corre rápido só de pensar na cadência do seu pulso. Meus seios tomaram o formato exato das suas mãos e a curva do meu ombro ainda implora pelo seu queixo.
As minhas pernas que só emaranhadas com as suas eram felizes, sozinhas andam trôpegas. Não é a embriaguez, é só sua ausência.
Meu orgasmo sem você na platéia não é prazer, é só o fim.
Eu sinto as suas mãos invadindo os meus espaços e a sua boca sucumbindo a minha.
Eu posso prever o seu orgão tremendo entre meus dedos, as veias saltadas colorindo o teu prazer. E o meu prazer não é completo sem o teu, o meu corpo tem as dimensões exatas para o seu. Nós somos corpos, nós não temos corpos. Precisar do seu corpo é precisar de você no sentindo mais puro. E eu te preciso, com a precisão do tamanho do meu amor amor, do meu desejo, da minha fé. A música continuava tocando, sempre continuava "Apenas te peço um favor não lance nos meus esses olhos de mar que eu desisto do adeus
pra me envenenar".

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A vida sendo como ela é (presente prometido)





Cada dia é uma vida inteira que se estende a nossa frente. Cada dia estende-se em um tapete vermelho que devemos seguir. Só este conselho você deve ouvir, criança:
- Devemos seguir. Mesmo que chova, mesmo que falte cor nos dias, devemos seguir sempre apesar e viver apesar das cruzes e dos rosários caídos. Sempre haverá os sorrisos daqueles que amamos, sempre haverá o canto de Oxum pra te proteger dos mensageiros que andam a semear a descrença e a ruína, sempre haverá o amor.
Este amor que não mata a sede do saciado, só lhe aumenta a ânsia por seu néctar divino.
Este amor que conhece a nobreza, que vem no vento e te abraça a alma. Este amor que se transforma na flor do seu sorriso. É este amor pequeno, singelo e  silencioso que eu te desejo, pequena.
Voce é o presente que foi trazido das espumas do mar, é somente sua essa sina de espalhar amor, de extrair sonhos do pó e graça e vida do vazio.
E com sua beleza de flor recém despencada da árvore você cria vida nas coisas modestas.
Desde o torrão de açucar a mais no chá até o passo cadenciado ao ritmo do mundo.
E você dança a balada da vida sem pudores e seu corpo treme de fome e de êxtase, você é real.
Você começa e termina em você, como um dia, como o próprio mar do qual é criatura.
Oxum enfeitou seus cabelos com os tesouros das águas doces e te deu o canto da sereia, mas foi Mãe Iemanjá que te deu a candura e a bravura e te brindou com essa alma que se acaba em amor pelo mundo.
O amor salva o vazio, menina.
O amor salva o mundo.
A alegria revigora e queima karma, e o que é pra ser tem muita força, quase a força das asas do tempo.
E foi pra colorir a vida que Iansã te fizeste mulher e moça, pra florir todas as lágrimas, para acalentar em seus braços os que não sabem que a vida é hoje e a isso damos o nome de "presente", porque nos é dada a chance a cada dia de recriar o nosso ser errante. O seu "presente" ainda vem, menina.
Ele é uma surpresa na curva. Na curva do rio, na curva de um sorriso, numa curva da vida.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O filme nas suas pálpebras





                                                                                                                                                         "I always watch when 
                                                         you're dreaming,
                                                                                                                   ... because I know it's not of me

                              And the movie on your eyelids,
                                                                                                                   there's no reflection of myself
                                                                    There's no reflection...of myself
                                                                                                                   There's no reflection...of myself

   I wanna be, I wanna be your movie
                                                                                                              I wanna be, I wanna be your movie

                 Why can't you be me?
                                       Why can't you be me?
                                                            Why can't you be me?
                                                                                                        Why can't you be me?                              
  Be me
                                                                                  Be me
                                                                                                                       Be me
                                                                                                                                                         Be me.

Eu escrevo pra você que não me lê, não me lê nem em palavras nem em olhares.
Eu escrevo pra você que não ouve as minhas músicas, pra você que não sabe o que eu penso sobre o vazio do céu.
Eu escrevo pra você que não sente meu pulso, que não sabe em que cor eu sangro.
Eu escrevo pra você que não diz as palavras que eu preciso.
Eu escrevo pra você que não choras das dores que choro.
Pra você que mente ler, mente ouvir, mente saber, mente sentir, mente dizer, mente chorar.
Pra você que provoca a mais absurda angústia, a mais terrível poluição de sentidos.
Pra você que me agride sem gesto algum e que me destrói sem palavra alguma.
Pra você que não retribui, pra você que ficou em algum lugar do passado e não chegou até aqui.
Pra você a quem sempre escrevi cartas suicidas sem que você as reconhecesse como tais.
Eu escrevo como quem morre e ninguém percebe, porque ninguém precisa, porque ninguém se importa.
Eu escrevo como quem assassina brutalmente alguém, como quem tem uma hemorragia infinita, como quem se dói com a vida.
Escrevo porque vejo a vida inteira.
E é pra você que agora me lê e não entende a quem eu dedico minhas derradeiras horas antes de trilhar o caminho do purgatório por ter um corpo que não comporta minhas asas.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sobre Tirésias e sobre um lobo


Não sei ainda se continuo dormindo ou se despertei ao contrário, eu havia dito há um tempo atrás que acordar do avesso é irreversível.
Muito cuidado pra não congestionar a alma, muita suavidade pra reprimir a fúria, muita palavra pra cobrir o que não deve ser dito, o que não pode ser dito.
Muita coisa vaga, muita coisa aquém de qualquer expectativa.
Não existe sangue aqui, não existe vida aqui.
Um nome, uma crença, um pacto, uma dívida.
Ninguém suficientemente bom pra julgar a dor, ninguém suficientemente humano pra desdenhar dos fracos, ninguém suficientemente real.
Sobrou um pouco da luas de antes, um pouco de cheiro de cravo de manhã, um pouco de amor em algum lugar escondido.
Sobrou um pouco de mel do arco-íris, um pouco de orvalho caindo das copas da árvores, um pouco de melancolia.
E eu parei no caminho, vi pessoas que passavam sem querer falar e pessoas que falavam pra disfarçar os passos cansados. Vi tanta indiferença, tanta gente com os olhos marejados e outros tantos que se incomodavam com a dor, Vi outros que resignados seguiam sua jornada de simplesmente seguir sem precisar se importar com o destino, despejando suas sortes nas mãos de um pobre cego.
Eu queria olhar para o cego Tirésias, mesmo sabendo que ele não poderia me ver, eu queria pedir pra ele descobrir esse manto de estupidez dos meus olhos, eu queria que da sua cegueira e da minha cegueira nascesse o real. Então eu poderia dizer o que jamais deve ser dito com a certeza de que por essa vez me ouviriam e entenderiam. Eu queria não estar a beira do abismo toda vez que fito a imensidão, eu queria estar de frente com o mistério sem que ele me desafiasse com os seus olhos de abutre faminto. Esses olhos que ferem mais que a própria boca desvairada.
Eu queria que todos os fantasmas fossem embora junto com o inverno, eu queria que eles não estivessem dentro de mim. Acho que foi Vírginia Woolf que disse que se os lobos estivessem por fora bastaria afugentá-los com um pedaço de pau. Mas como faço pra afugentar este lobo manso que repousa em sono leve aqui dentro?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Guerreando por paz


Uma verdade que tinhamos que aceitar naquele tempo, era a de que existiam circunstâncias que não estavam em nossas mãos alterar os cursos. Existia porém a regra de não viver sem a presença onisciente das palavras e de ceder sempre a insistência das mesmas quando exigiam voz. Nós, geralmente, procuravamos ser melhores que eles, melhores do que pretendíamos ser anteriormente. Afinal, a vida não era tão ruim. Ainda haviam navios nos portos, havia caça nas fogueiras e música vinda das tabernas para alegrar mais um dia de paz. A paz em nosso tempo era aquilo que o amor é hoje. Um espaço paralelo, uma trégua na espera, na aspereza, no breu. A paz era o canto derradeiro da Fênix em pleno outono.
Contávamos estórias de amores edílicos e de fronteiras invioláveis as nossas crianças.
Eu mesmo, contei centenas de vezes os desamores de Apolo e os infortúnios da virtuosa Cassandra. A paz era o que tentávamos alcançar pela guerra, triste disparidade.
Nos altares de Belona estendemos nossas oferendas e rezamos para que a guerra quando necessária, fosse justa e não cercada da cínica vaidade dos inúteis.
A vida deveria ser celebração, era assim que cantavam os trovadores de meu tempo, quando a Terra não jazia sob o jugo deles.
Eu não consigo me recordar exatamente quando eles chegaram. Só sei que era verão.
As aves de fogo singravam os ares e todos eram atraídos pela melodia e fragância das flores do campo que como mulheres melindrosas e palpitantes exibiam-se em suas mais exóticas cores e aromas.
Com os que chegaram veio também toda a sorte de desgraças e maleficências.
A cólera, o desamparo, a violência despudorada, a fome.
Não tinhamos mais armas que fossem capazes de mudar o curso dos ventos, muito menos palavras que cessassem a fúria dos algozes.
Quando não podemos deter o curso do destino atroz, não seria melhor abandonar o campo de peleja? Pra que lutar contra o invisível? Os laços do passado continuam vivos, latentes e eu continuo com medo da paz. A paz implora silenciosa, mas não possui força que a faça durar, fúria que a faça  forte o suficiente para que dure, para que não se esgarce, para que não se vá com o vento como matéria que nasceu nos sonhos.
A paz me amendronta, assim como amedrontou meus companheiros.
A guerra silenciosa de hoje pulsa tanto como a de outrora, mas apenas os sábios, os poetas e os loucos podem vê-la, diria melhor, podem senti-la.
Eu continuo aqui, horrorizado e ansiando pela paz, essa minha paz que nunca chega mas que irei esperar até a poeira dos meus dias se esgotar.